Carta aos meus pés

Meus queridos pés,

Caminhamos juntos há quase quarenta e quatro anos.

Chegamos a esse planeta num parto rápido e indolor, num país chamado Brasil, mais precisamente nas terras de Minas Gerais, no outono de abril de 1973.

Não demoramos muito a nos firmar no chão. Nossos primeiros passos foram dados em Teresópolis, numa solitária casinha no Vale São Fernando.

Nossos primeiros anos foram preciosos.

Nos refrescávamos em riachos, pisávamos felizes em pedrinhas, grama verde e chão de terra batida. Corríamos livres por colinas e bosques. Subíamos em árvores altas, escalávamos montanhas, percorríamos nosso pequeno mundo com curiosidade. Tínhamos muita coragem.

Crescemos e fomos parar na cidade grande. Estranhamos muito o Rio de Janeiro. A dureza do asfalto, a pressa das pessoas, a ausência dos vaga-lumes. Mas nos encantamos a primeira vez que pisamos na areia da praia de Ipanema. Encontramos o mar e o mar nos curou da saudade da terra.

Foram anos bonitos também.

Andávamos de patins, de bicicleta. Aprendemos a dançar, a gostar da cidade, tínhamos muitos amigos. Até que um dia encontramos um solo tão precioso para nós quanto um dia tinha sido a terra. Lembram? Foi quando pisamos num palco de teatro pela primeira vez. Depois de muitos anos, tínhamos encontrado de novo um lugar no qual nos sentíamos em casa.

Foram anos emocionantes.

Brincávamos de ser outros pés, de existir de outras formas. Sonhávamos acordados, voávamos para onde queríamos. Descobrimos que a vida era sonho e que sonhar também podia ser uma forma de caminhar pelo mundo.

Mas o tempo passou. E o tempo nos trouxe o tempo de carregar outros pés dentro de nós. Colocamos no mundo dois pares de pezinhos encantadores. E encontramos de novo o sentido de existir.

Foram anos incríveis. E muito trabalhosos também.

Porque passávamos quase o tempo todo ou alimentando os pezinhos ou correndo atrás deles. Acho que nunca podíamos imaginar o que significava colocar outros pés no mundo.

Foi quando a vida nos levou a percorrer outros solos do nosso país. Fomos para São Paulo, para Joinville. Mudávamos de endereço como quem muda de sapato. Buscávamos alguma coisa que nunca encontrávamos.

Foram anos estranhos.

Até que chegamos a Niterói. Cidade que vivemos hoje. E durante muito tempo aqui fomos felizes. Até que vocês adoeceram.

Há mais de um ano, vocês passaram a sentir muitas dores para caminhar. No início, a dor acontecia somente na hora de sairmos da cama. Eram os primeiros passos depois do sonho que nos faziam sofrer. Mas com o passar dos meses, a dor no caminhar foi se transformando em algo constante e muito angustiante para nós.

Falo com vocês, tento entender o que sentem, mas nenhum dos dois parece me ouvir. É onde nós estamos que vocês não querem mais estar? É por onde caminhamos que vocês não querem mais caminhar? A dor paralisou vocês e eu preciso entender por que.

Temos vivido um período de profunda tristeza. Cuido de vocês com toda a dedicação. Já fiz de tudo que podia. Tudo que estava ao meu alcance. Massagem com cremes, banhos de óleo com canela. Salmoura com ervas. Gelo úmido. Comprei sapatos confortáveis. Tomei anti-inflamatórios, babosa, florais. Encomendei pantufas coloridas. Toalhas felpudas para secar vocês. Fiz fisioterapia com bolinhas, moxabustão. Fiz carinho. Escrevi em vocês palavras de amor e cura. Os abracei com amor. Mas nada parece ajudar.

Meus pés, meus queridos pés

O que é que vocês estão tentando me dizer com essa dor que não cessa nunca? Que vocês não querem mais caminhar? Ou que não suportam mais o caminho que escolhemos trilhar?

Será que não nos enraizamos o que precisávamos para estar aqui? Será que nunca ancoramos na Terra como deveríamos? Ou será que precisamos agora de asas para voar?

Meus pés, falem comigo. Me digam o que preciso fazer para que parem de chorar.

Sei que sentem falta do tempo que andávamos livres por riachos e também sentem saudade dos palcos da vida. Mas será que são essas ausências que fizeram vocês adoecerem? Me deem uma pista do que posso fazer. Por vocês… por nós.

Se estamos vivos, é sinal de que nossa missão ainda não chegou ao fim.

Mas não me deixem aqui sozinha. Caminhar sem vocês não faz sentido algum. Porque não conseguirei caminhar por inteiro. E muito menos ser feliz.

 

 

Catadora de Lindezas

Arte de Pieter Bruegel

Para Rosane

Esse ano eu amanheci diferente.

Também pudera.

Dia 31 não fiz nenhuma lista de metas para o próximo ano. Não prometi nada para ninguém nem para mim mesma. Não fiz nenhuma expectativa para a festa de réveillon. Não tive pressa do tempo.

No último dia do ano, passei o dia experimentando a difícil e linda tarefa de não reclamar de nada. De verdade.  Respirando fundo quando me aborrecia. Agradecendo mentalmente tudo aquilo de maravilhoso que tenho em minha vida. Agradecendo a chance de estar viva e poder recomeçar.  Tentando me perdoar pelos erros que ainda me atormentavam. Mas, sobretudo, desejando ter entendido tudo que a vida me ensinou, para pelo amor de Deus não ter que voltar para mesma lição, toda de novo, no início do ano.

Esse ano eu amanheci diferente.

Com um propósito simples de olhar para vida de um lugar diferente. Todos os dias. Como se eu simplesmente pudesse mudar de ângulo. De perspectiva. Numa mesma vida. Num mesmo corpo. Numa mesma alma. E parte dessa decisão se conectava justamente ao ato de não querer mais reclamar. Reclamar é um veneno que intoxica. E apodrece a gente por dentro.

Transformar o lamento em alguma coisa melhor pode ser um ato diário extraordinário. Porque todos os dias eu preciso lavar louça. Mas não é por causa disso que preciso me estressar tanto. É preciso reinventar a coisa. É preciso aprender a brincar com a espuma. Conversar com as xícaras.  Fazer poesia com as panelas.

Foi quando me lembrei de um texto que recebi de uma amiga querida esse ano que dizia assim:

“Eu venho de um lugar que é luz mesmo em noite escura. Que é paz, fé e carinho.
Eu venho de lá e não estou sozinho, “sou catador de lindezas”, sobrevivo de encantamento, me alimento do que é bom, do bem. Procuro bonitezas e bem querer, sobrevivo do que tem clareza e só busco o que aprendi a gostar.”

Nessa hora, minha alma deu um estalo. E eu decidi o que queria fazer em 2017. Ser catadora de lindezas. Virar uma caçadora de poesia nas coisas escondidas. Mudar o olhar para o mundo. E fazer isso diariamente. Não só no dia de inspiração profunda. Mas também no dia da tristeza, do mau humor, da desesperança. Para mudar, é preciso alterar as nossas configurações mais profundas. Parar de reclamar é uma escolha. Viver poeticamente também.

Esse ano eu amanheci diferente.

Também pudera.

Voltei a escrever.

P.S. O trechinho do texto lindo é da autora Rita Maidana.

Uma carta para Marcia do Valle (ou esse labirinto dentro da gente)

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Marcinha, minha amiga querida

Há umas semanas atrás você encontrou Clara e Catarina no ônibus e perguntou sobre os meus textos. “Cadê os textos da tua mãe, gente?” Elas riram. Adoram você. E trouxeram a notícia como quem traz uma sementinha. Jogaram a coisa dentro de mim e quem diria, a coisa brotou.

Desde então não paro de pensar em você. E nesse vazio que ficou lá no “Onde Habita Minha Alma” desde que me perdi pela última vez. Levei um susto ontem quando me dei conta que tem mais de dois meses que eu não escrevo. Nem uma linha sequer.

É impressionante como a gente se perde nessa vida. A toda hora. A todo instante. Eu sou mestra em me perder de mim mesma. E me encontrar. E logo em seguida me perder. Até parece que a minha existência foi plantada num labirinto.

A grande verdade minha amiga, é que essa coisa de existir para mim é bem complicado. Principalmente existir todos os dias. Porque se eu tivesse que existir só de vez em quando, talvez eu desse conta. Mas todo dia po. É uma canseira esse troço. Principalmente quando a gente se exige inteireza. Aí é que a coisa pega.

Minha alma é um vendaval, você sabe. Bastou ventar mais forte que eu me desequilibro. Há dois meses minha vida deu uma desmoronada – nada grave, os desmoronamentos normais da vida – e aí eu fiquei sem telefone, sem internet, depois tive que mudar às pressas de onde eu morava para o antigo apartamento da minha mãe e desde então, passei a viver acampada entre caixas. Se isso já é uma coisa esquisita, imagina para uma taurina? Fora que eu ando trabalhando exaustivamente na Escola. E trabalhando exaustivamente nesse projeto que é criar dois seres humanos. Parece bobagem . Mas foi o bastante para me perder. E quando eu me perco, a primeira coisa que acontece é eu parar de escrever.

Deveria ser o contrário né. Lembra daquela mãe-de-santo que me disse uma vez que minha escrita deveria ser meu porto seguro, meu norte, minha bússola? Pois é.  Pois eu nunca consigo colocar isso em prática. E ao invés de jogar esse bote salva-vidas na água, eu fico me afogando que nem uma louca no mar de todos os dias. Por que eu faço isso? Porque eu sou um ser humano e apesar de toda genialidade genética da minha espécie, no fundo eu sou um poço de contradição e chatice.

Mas enfim, minha bichinha, às vezes a mágica acontece e uma pessoa do nada chega na vida da gente e sopra uma esperança. Como foi o seu caso, lá naquele ônibus, quando fez a tal pergunta para as meninas.

Por isso, e por mais um bocado de saudade, resolvi vir aqui te escrever e dizer, que mesmo perdida, eu vou seguindo o curso do rio. Porque no fundo acredito que alguma hora, alguma correnteza vai fazer sentido. Que as desventuras em série vão se esclarecer, os medos vão se dissipar e o equilíbrio vai voltar a governar. Pelo menos até a próxima encruzilhada.

Tem duas coisas que tem me ajudado muito no labirinto: uma é chamar pelo presente. Conhece aquele gnomo da luz, Eckart Tolle? Cara, desde que descobri esse homem e essa teoria do “Poder do Agora” que não paro de pensar no quanto é possível dissipar as angústias se a gente chama pela nossa simples presença nos dias. Essa teoria dele é genial, mas como tudo no cotidiano, fica forte quinze minutos e se perde no resto das 23 horas e quarenta e cinco minutos do dia. Mas esses quinze minutos! Ah caramba! É o nirvana. Porque é isso Marcinha! Não existe nada que não seja o momento presente. No fundo, no fundo, repara. A gente tá sempre sofrendo muito pelo que passou ou pelo que ainda nem chegou. Faz uma lista! É impressionante descobrir o quanto a gente é refém dessa merda de mente pensadora enlouquecida e esquizofrênica. Mas enfim.

E a outra é pensar, assim que eu acordo, onde é que está meu coração naquela manhã. Aprendi isso com uma amiga querida aqui de Niterói, a Catita. Uma irmã de caminho maravilhosa que você ia adorar conhecer. Ela me ensinou que grande parte da desconexão da gente diária se dá, porque nem todo dia a gente sabe onde está nosso coração. Situá-lo no mundo significa essencialmente nos ouvir a cada manhã. Entender e acolher a forma que acordamos. Entender se estamos fortes para a luta, ou sensíveis demais. E nos alinhar para a forma que conduziremos o dia. E nos respeitar apesar de todos os pesares.

Eu me alinho muito quando ouço músicas que habitam minha alma. E acendo uns incensos cheirosos. E tomo um café com Adélia Prado e faço minhas preces de gratidão à vida e a todas as infinitas bênçãos que tenho – apesar de ainda desejar tantas que ainda não tenho (olha a contradição aí de novo pentelhando). Mas enfim, paciência Tatiana, paciência com a sua humanidade.

E como humana anônima repito: só por hoje consegui escrever. Só por hoje consegui me conectar. Só por hoje tenho coragem de confessar: morro de saudade e desejo de voltar aos palcos contigo. Uma hora dessas, eu encontro a saída e a gente vai ser capaz de se reencontrar. Não só na vida, como na arte.

Te amo, minha irmã. Nunca se esqueça.

Beijos da tua eterna, Tatiane Pelinque

 

Amor e verdade

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Para Marcia Cypriano

Eu sempre achei essa coisa de “lema de vida” uma coisa meio cafona, meio lugar comum, meio comercial da Nike. Talvez por preconceito. Talvez por temer ficar na superfície das coisas, como se uma frase de motivação não pudesse nunca resumir um sentido de vida para mim. Uma atitude bem pedante se a gente for pensar, mas era assim que eu sentia.

Aí um dia eu conheci um cara que revolucionou a minha forma de olhar o mundo. Que me fez despertar de um monte de coisa esquecida em mim e me fez reavaliar metade das coisas que eu achava que pensava do mundo. Sabe essas pessoas que a gente conhece e acabam virando um divisor de águas na nossa vida? Pois é. Isso foi o que fez Jonatan Agra quando chegou na minha vida. Uma bagunça incrível que eu nunca vou esquecer.

Eu não sei bem como a coisa começou. Eu sei que duas palavras surgiram nas nossas bocas e passaram a ser repetidas como um mantra. Quando a gente via, lá vinham elas de novo, trazendo tudo que a gente queria dizer. Foi então que a gente entendeu que elas tinham chegado para ficar. E que de alguma forma, tinham virado um lema de vida. A gente passou a ter orgulho delas. E orgulho de ter um lema. Para vocês verem como a vida às vezes dá um safanão na nossa cara. Mas tudo bem.

Amor e verdade.

De repente, tudo no meu cotidiano parecia perfeitamente espelhado no sentido mais profundo dessas duas palavras. E elas passaram a ser um pilar. Uma estrutura básica de conduta e força para a minha vida. Uma coisa linda. Poética. Viva. Real.

Mas… A vida é como ela é.  E não é só é uma caixinha de surpresas. Mas também um baú de concreto que de vez em quando cai sobre as nossas cabeças. Mesmo que a gente ache que já passou por tudo, não. Não passou.

Então, na semana passada, um golpe do destino me fez cair do cavalo e me fez regurgitar meu lema de vida só para me mostrar que as coisas não são tão simples como eu gostaria que fossem e que para se ter um lema de vida é preciso muito mais do que proferir duas palavras. E preciso entender que ou elas caminham juntas, ou podem simplesmente se aniquilar.

A vivência foi simples. Eu coloquei o amor na frente da verdade, contei uma mentira e vi todo o meu mundo despencar. Foi patético. E muito doloroso.  Porque acabei ferindo outras pessoas, mesmo sem ter tido a intenção.

Mentira é uma coisa muito esquisita. Porque ela é tolerada pela sociedade desde que o mundo é mundo e muita gente acabou se acostumando com ela. As pessoas falam mentiras, os políticos falam mentiras, as propagandas falam mentiras. Ela está entranhada no nosso dia-a-dia. E a pergunta que me faço é: por que é tão difícil falar a verdade?

Prestemos atenção num dia de 24 horas: quantas pessoas no mundo conseguem passar um dia inteiro sem contar uma mentirinha sequer? Para alguém ou para si mesmo?

Aquele ditado que mentira tem perna curta é irritantemente verdadeiro. Mas porque será que ela não se sustenta? Porque ela é feita de pó. De boato. De embromação. De ilusão. No dia que fui pega na mentira, senti uma dor tão forte no peito que mal podia respirar. Deve ter sido o efeito da adrenalina. Ou da vergonha. Voltei para casa com vontade de fugir para longe e nunca mais voltar. Mas como é da minha natureza, ao invés de fugir eu resolvi que queria ir fundo na experiência e entender porque, naquela altura da vida, eu ainda conseguia cair numa armadilha dessas. E cheguei à conclusão de que a verdade é muito mais difícil de ser aplicada do que o amor.

O amor, para quem foi amado, é um sentimento fácil de ser multiplicado. Porque ele se espalha e penetra com facilidade nos menores cantinhos. Em muitas ações, grandes ou pequenas, podemos disseminar o amor.  Até mesmo para aqueles que preferem o substantivo ao verbo. Mas a verdade…

A verdade já são outros quinhentos. Porque ela carrega em si um peso daquilo que não tem filtro, não tem máscara, não tem saída. A verdade é crua. E absoluta. E por isso pesa. Porque o ser humano é contraditório e egoísta. E por mais que a gente queira ser honesto sempre, muitas vezes acaba simplesmente não conseguindo falar a verdade, porque acha que ninguém vai entender o que você não conseguiu explicar.

Mas é uma escolha.

Assim como muitas que a gente precisa fazer todos os dias.

Com a verdade não há sobressaltos, nem medo, nem adrenalina, nem arrependimento. Com a verdade só há preto no branco. Ou uma paradoxal transparência.

Amor e verdade.

Eu rogo para que vocês nunca mais se separem, e que ao caminharem juntas, possam me ensinar que muito mais do que um lema para a minha vida, vocês possam ser aquilo que eu vou poder deixar de herança para as minhas filhas. Um legado de paz a um mundo que cada vez parece mais perdido em suas contradições. E por isso, termino meu texto aqui parodiando Frida Kahlo, com toda a admiração que tenho por ela:

“Onde não puderes amar e falar a verdade, não te demores”.

O frio que acolhe

frio

A chegada da frente fria essa semana me renovou as esperanças.

Depois de tantos meses de calor, do cotidiano esbaforido e melado, das noites mal dormidas na secura do ar condicionado e do superfaturamento na minha conta de luz, o friozinho chegou anunciando tempos de paz.

Eu não sei direito onde é dentro da gente que a temperatura mexe tanto com o nosso humor. Vivemos num país tropical e todo mundo sabe que no Brasil só existem duas estações do ano: o verão e os poucos meses do ano que está fresquinho. Mas essa alegria incontrolável que me causa os 16˚ no termômetro tem uma explicação.

O frio tem um glamour. Ele veste botas, gorro e cachecol. Ele nos dá a chance de sairmos de casa elegantes e voltarmos para casa no final do dia ainda razoavelmente inteiros. Ele é perfumado, chique, intelectual.

Claro que o verão tem suas qualidades. É uma estação expansiva, cheia de alegria. O sol brilha, o céu explode o azul, mas tanta energia solar cansa. Dias deslumbrantes de sol exigem da gente uma alegria enorme, e não é todo dia que a gente está a fim de ser feliz.

O inverno não. Ele te possibilita uma introspecção deliciosa. Um respeito aos sentimentos. Um respiro na alucinação expansiva da vida. O frio nos retrai, mas isso não significa uma perda de espaço e sim um reencontro com um lugar interno nosso esquecido durante os meses de calor.

Meu pai costumava contar que os meus ancestrais que chegaram a Joinville no início do século passado sofreram muito com o calor do Brasil. Para quem estava acostumado com o frio da Alemanha, Joinville era uma sauna. Construída sobre um mangue, a cidade das flores no calor não só é muito quente como insuportavelmente úmida. Imagino os meus tataravôs sem conseguir entender aquele suor brotando dos poros e escorrendo por todos os cantinhos do corpo – e a falta da referência histórica de suas roupas pesadas e calefação para viver. Teve gente que morreu de depressão. Barra pesada.

Eu devo ter herdado no meu DNA essa dificuldade com o calor. Eu me vejo suando muito mais do que as outras pessoas. O calor me afeta tanto que tem dias que eu não consigo fazer nada direito. Ele me dá uma prostração, uma falta de ar, um desânimo. Me faz tomar cinco banhos num mesmo dia e me transforma numa psicótica que só quer saber de buscar pela cidade ambientes que tenha ar condicionado. Fala sério!

Já o frio me traz oxigênio.

Ele me faz pensar melhor, me dá uma disposição para viver. Ele me traz as xícaras fumegantes de chá, os pratos deliciosos de sopa, o fondue, o vinho tinto. As roupas macias, as luvas e meias coloridas, a lareira. O aconchego do edredom, a quietude da alma, o tempo para ser sem ter que fazer tantas coisas.

Mas, sobretudo, talvez o que o frio mais me traga de precioso é essa possibilidade de entrar em contato comigo mesma. Como uma ponte para a introspecção. Uma desculpa para mergulhar no mais profundo e verdadeiro que há em nós.

Nos ciclos da natureza, o tempo do frio é o tempo de entrar na caverna. Tempo de recolhimento. Eu adoro. Já dizia Bruna Lombardi: “quanto mais fundo entro no meu caos, melhor me oriento”.

Que assim seja. E assim é.

Sobre fronhas e o universo

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Ontem eu estava dobrando uma fronha para guardar no armário, quando uma pergunta me invadiu a consciência: quanto do mundo pode caber em nós?

Já tem tempo que eu não passo mais roupa, mas confesso que o ritual das fronhas aqui em casa é complexo. Eu tenho um lance com fronha. E por isso cuido delas com muito carinho. O sucesso de uma boa noite de sono começa numa fronha cheirosa e macia. Fronhas são portais para o mundo dos sonhos. É através delas que começamos o processo de descanso. Delas e do jeito que deitamos nossas cabeças no travesseiro e dissolvemos todas as coisas que nos aconteceram ao longo do dia.

Mas a pergunta não veio na hora de dormir. Veio na segunda dobradinha da fronha. Quanto do mundo pode caber dentro de mim?

Desde que o mundo é mundo ele tem o mesmo tamanho. Mas antigamente a gente não tinha a dimensão do tamanho que ele tinha. Minha avó tinha uma casa, um quintal, uma janela e alguns sonhos. Claro que ela teve um rádio que ampliou seus ouvidos e uma televisão que lhe abriu os horizontes, mas eu tenho certeza que a minha vó nunca se fez essa pergunta: quanto do mundo podia caber dentro dela.

Perguntas filosóficas sempre me chegam como um soco na boca do estômago e geralmente quando estou debruçada sobre as pequenas tarefas do dia-a-dia. É impressionante. Como se o micro num pequeno espaço pudesse dar passagem ao macro de um mundo infinito.

Isso já tinha acontecido várias vezes comigo. Mas ontem, entre a fronha e a pergunta, um vazio se abriu dentro de mim. E eu acho que foi pela dimensão da pergunta. Porque sem querer ela comprovou uma teoria louca da minha realidade que eu nunca tinha contado para ninguém.

É assim.

De vez em quando, involuntariamente, eu faço um descolamento da realidade, como se na minha mente tivesse instalado um aplicativo do Google Earth que me situasse no tempo/espaço de onde pudesse me perceber no planeta numa perspectiva planetária.

Ai, deixa eu ver se eu consigo me explicar melhor.

Imagina que dentro do meu quarto, há uma câmera me filmando de cima, dobrando uma fronha. E essa câmera aos poucos vai se afastando. Subindo. O que vemos em seguida é a janela do meu quarto, comigo menor lá dentro, dobrando uma fronha. Ela sobe mais e podemos ver meu prédio, dentro do meu condomínio em Pendotiba, sabendo que lá dentro, eu estou dobrando uma fronha. A câmera continua a subir e então vemos a região serrana de Niterói. Para em seguida abrir um pouco mais para a cidade do Rio de Janeiro, para em seguida abrir para o estado, a região sudeste, o Brasil, a América do Sul, para enfim puxar até vermos o planeta azul, sempre lembrando de mim, lá no meu quarto, dobrando uma fronha.

Essa perspectiva quase sempre me enlouquece. E me faz pensar no tamanho do mundo e na nossa pequenez enquanto matéria, em contraposição ao infinito que representa o nosso espírito. Fico pensando se não foi uma sorte minha avó não ter tido acesso a tanta informação. Porque cá entre nós, esses avanços da tecnologia da informação podem ser fascinantes na perspectiva de evolução do homem. Mas poder ter informações do mundo inteiro através de um único click no mouse pode ser bem atordoante. Imagina a quantidade de imagens, sensações e informações que entram em nós a cada segundo? Bom, para pessoas excessivamente criativas como eu, é um prato cheio para a piração.

Porque fecho os olhos e posso ver uma mulher caminhando no Afeganistão, um bebê nascendo na Bósnia, um casal brindando em Cuba, um menino andando de bicicleta na Dinamarca, alguém comprando um remédio no Egito, uma velhinha falecendo na Finlândia, um casal fazendo amor na Grécia, uma mulher chorando na Hungria, um grupo meditando na Índia, alguém fumando um baseado na Jamaica, um elefante morrendo no Kenya, uma loira se prostituindo em Luxemburgo, alguém se embebedando no México, um homem escalando uma montanha no Nepal, outro rezando em Omã, uma menina tocando piano na Polônia, um sheik espirrando em Qatar, uma serviçal batendo tapetes num castelo na Romênia, um menino andando numa roda gigante em Singapura, alguém andando de balão na Turquia, um senhor fritando um ovo no Uruguai, uma senhora colhendo arroz no Vietnã, um atleta saltando sobre um camelo no Yemen e finalmente, alguém cozinhando taturanas para jantar no Zâmbia.

Meu Deus.

Quanto desse mundo pode caber em mim já que ele é ele e mais seus sete bilhões de indivíduos?

Será que existe alguém no mundo nesse exato momento se fazendo a mesma pergunta que eu?

Não sei. Talvez eu preferisse ter apenas uma casa, um quintal e uma janela. E sonhar sonhos mais simples e ter um varal apenas para pendurar fronhas ao sol.

Não sei.

Eu já tenho

chazinho

Arte de Inge Löök

Outro dia olhei para o meu pé e me dei conta de uma certeza avassaladora: eu já tenho um joanete.

Eu já tenho manchas brancas na pele. Brancas e beges. Daquelas que as velhinhas alemãs têm aos montes.

Eu já tenho varizes nas pernas.

Eu já tenho manias.

Mania de tomar chazinho antes de dormir. Mania de passar creme no cotovelo antes de dormir. Mania de dormir na frente da televisão.

Surdez eu sempre tive. Isso não é novidade. A novidade agora é colocar os óculos para ler, depois de não aguentar mais esticar o braço para reconhecer qualquer coisa.

Eu já tenho uns cansaços esquisitos, uma dor no calcanhar misteriosa e uma câimbra na costela esquerda desde a última gravidez.

Eu já tenho rabugices. Detesto quando os homens da minha casa fazem xixi e não fecham a tampa de volta. Me irrito quando abro a geladeira e não tem água gelada nas garrafas, mesmo não gostando de tomar água gelada. Reclamo baixinho sempre que posso. Resmungar é uma rabugice deliciosa de fazer.

Eu já tenho muitas histórias para contar que aconteceram há mais de duas décadas. Tá. Há mais de três. E isso de vez em quando me assusta.

Eu já tenho rugas nos olhos. E um olhar diferente para as coisas. Incrivelmente, eu hoje tenho mais calma do que jamais tive e isso é maravilhoso porque foi o que mais sonhei para minha idade avançada. A serenidade para olhar e reagir à vida.

Eu já tenho filhas que me aconselham, sobrinhos que namoram e uma tiavó de 105 anos que já não lembra mais muito de mim.

Eu já tenho cabelos brancos. E levo um susto cada vez que o cabelo ruivo cresce e eu me dou conta de que não sou ruiva e no meu couro cabeludo mora uma grisalha que eu nem conheço.

Eu já tenho isso tudo e nem fiz cinquenta anos. E o melhor, estou muito feliz por isso.

 

P.S. Quando fui pesquisar imagem para colocar no texto, achei essa preciosidade no Google. Pinturas de velhinhas felizes da artista finlandesa Inge Löök! Tudo que eu sonho para minha velhice. Divirtam-se!

http://www.contioutra.com/as-velhinhas-felizes-da-artista-finlandesa-inge-look/

 

Os sons da alma

trem-antigo-wallpaper

De todas as memórias afetivas que eu guardo no meu coração, talvez uma das mais preciosas e celestiais seja a lembrança do apito do trem que passava nas madrugadas em Joinville.

(clique aqui para ouvir o que eu ouvia)

Todas as noites, ele passava a mesma hora, no mesmo silêncio da cidade adormecida. E eu esperava por ele. Não sei porquê. Mas algo em mim fazia sentido quando aquele trem passava. Eu morava num bairro distante, numa parte da cidade que estava no extremo oposto à estação que o trem passava. Mas mesmo assim eu conseguia ouvi-lo com uma impressionante nitidez. Todas as noites. Eu repetia a mesma cena. Saia da cama em silêncio e ia até a varanda, de camisola, esperar por ele. Perdi a conta de quantas estrelas contei e quantos desejos desejei em estrelas cadentes ao esperar por aquele trem.

A vida é estranha e maravilhosa. E nela habitam tantos sentimentos, tantas experiências e tantas impressões que às vezes, fica difícil de explicar. Deve ser por isso que inventaram a poesia. Para explicar as coisas inexplicáveis. E deve ser por isso que eu vejo poesia em tudo. Porque há coisas demais no mundo que são indescritíveis e inenarráveis.

Sim. Eu vejo poesia em quase tudo. Mas nem sempre ela se traduz em palavra. A poesia as vezes pode ser simplesmente um estado de ser. Uma forma de ver. Eu via tanta poesia naquele apito de trem. Porque via pessoas partindo. Pessoas chegando. Via um imenso fantasma de ferro atravessando o mundo como quem busca o próprio destino. Havia algo mágico naquele som. E eu não precisava explicar. Só precisava me permitir sentir o que sentia.

Nunca mais esqueci aquela experiência.

Eu tenho uma coisa com o som das coisas. Eu fico mexida quando um sino toca. Quando ouço uma onda se quebrar na beira da praia. Quando o vento chia forte, ou quando o próprio vento faz barulhinho nas folhas das árvores. Eu fico mexida com ouço trovoada, daquelas fortes que dão medo. E desmaio de amor com o som da chuva. Me emocionam os barulhos na natureza. Todos eles. Tipo sapo coaxando. Grilo grilando. Galo cocorocando. Mas também gosto do som de gente. Gente assoviando. Gente cantarolando. Gente gargalhando.

Se eu pudesse juntar minhas memórias afetivas num só lugar, eu gostaria que fosse numa trilha sonora, onde tudo aquilo que ouvi e senti do mundo pudesse se condensar num única música. Uma canção que me fizesse lembrar as melhores e mais profundas experiências que eu pude viver. Só com os sons da minha alma. Para ouvir nas estrelas o dia em que eu não estivesse mais aqui.

Que lindo seria.

 

 

Intimidade

balão-colorido

Pouca gente sabe de coisas que só a gente sabe. Não é questão de segredo. É questão de intimidade.

Pouca gente sabe,
que eu perdi um neném entre a Clara e a Catarina e que de vez em quando eu sonho com ele.

Que eu encontro uma paz profunda e silenciosa no fundo da piscina.

Que os meus sonhos são como filme e eles estão todos registrados num caderno de sonhos que eu tenho desde os quinze anos.

E que eu acordo de hora em hora durante a noite, todas as noites da minha vida.

Pouca gente sabe,
que eu tenho uma paixão inexplicável por trens e trilhos enferrujados de trem.

Que eu já quase morri afogada em Ipanema e quase morri engasgada com uma azeitona.

Que eu sinto um prazer estranhíssimo espremendo cravo.

E que eu tenho mania de falar comigo mesma em inglês.

Pouca gente sabe,
que um dos maiores sonhos da minha vida é voar de balão.

Que eu tenho medo do escuro porque no escuro que eu vejo muitas coisas.

Que eu como tomate todos os dias porque eu sou louca por tomate.

E que geralmente eu converso com as comidas que preparo.

Pouca gente sabe,
que eu tenho um olfato tão apurado que sinto a chuva chegar muitos antes dela pingar.

Que eu penso na morte todos os dias e isso me faz sentir muito viva.

Que eu assistiria dois filmes por dia se pudesse.

Que eu viajaria pelo mundo inteiro se pudesse.

É.

Pouca gente sabe que quase sempre eu me pego pensando em como pouca gente sabe das coisas estranhas que a gente faz.

Uma carta quântica

maovelhinha

Na dimensão quântica do meu ser, essa noite, eu recebi uma carta. Uma carta, escrita por mim mesma, com a incrível data de 27 de abril de 2063. O dia em que eu supostamente estaria fazendo noventa anos de idade. Eu reconheci minha letra. A caligrafia, apesar de trêmula, era minha. O meu jeito de fazer o “M”. O meu jeito de falar. O meu jeito de escrever.

Talvez eu não consiga descrever aqui a emoção que senti na hora. Passei algumas horas caminhando em silêncio depois de recebê-la. E agora, só o que desejo é compartilhá-la com vocês, no desejo profundo de eternizar esse momento:

“Tati, minha querida e adorável Tati

Hoje é o dia do nosso aniversário de 90 anos. A casa está cheia e movimentada como a gente gosta. Há flores para todos os lados. Música, incensos, velas perfumadas. Clara e Catarina estão aqui com os nossos maravilhosos genros e netos. Você não imagina que mulheres incríveis que elas se tornaram. E os nossos netos! Tenho tanto orgulho do que fazem pelo mundo. Na verdade, estão todos aqui minha querida. Nossos sobrinhos amados, Joaquim e Victor. Nossa irmã Nenela, nosso irmão Gabriel. Toda a nossa imensa e maravilhosa família. Nossos amigos que permaneceram ao nosso lado, a vida toda. Sinto falta da mamãe e do papai. Sinto falta de todos aqueles que já partiram, mas sei que em breve eu poderei estar junto a todos aqueles que já atravessaram o rio. Sinto que a minha passagem se aproxima e me sinto tão feliz por isso.

Vivemos tão intensamente todos esses anos. Amamos tanto e com tanta força, fizemos tantos amigos. Realizamos o sonho de conhecer o mundo através dos nossos livros. Sabe quantos títulos temos publicado pelo mundo? Mais de cem, minha querida. Por isso te digo, não há o que temer. Você precisa continuar confiando no que é em essência e naquilo que pode dizer ao mundo através do filtro do seu coração.

Daqui desta minha dimensão, de vez em quando, eu posso te observar sabia? Na verdade faço isso desde que Clara nasceu. Ela veio ao mundo e de alguma forma abriu – com sua enorme capacidade espiritual – a janela que nos separava entre as muitas camadas energéticas que existem entre nós. É difícil te explicar como. Mas você vai ver que daqui a alguns anos a humanidade vai compreender as fendas no tempo e as infinitas possibilidades que temos de viajar entre as dimensões.

Muita coisa ainda acontecerá ao nosso planeta. Você ainda vai testemunhar algumas guerras e ver surgir uma nova Era para o que chamamos de Novo Mundo. Muitas coisas mudarão. Mas a sua capacidade de amar e olhar o mundo com esperança permanecerá. E é isso que nos salvará no futuro. Sua imensa e infinita capacidade de amar.

O que quero que saiba, é que todo o esforço que fez para ser o que sou hoje, valeu a pena. Sei o quanto a vida é difícil e estranha para você. Sei o quanto se esforça para estar nesse mundo, sei o quanto sofre para se adaptar a esta encarnação, mas acredite. Tudo terá valido a pena. Até mesmo o sofrimento que passará algumas vezes. Até ele terá sido importante para a nossa história.

Então, aqui eu me despeço. Preciso descer. Estão todos a minha espera lá embaixo para cantarmos parabéns. Que os anjos possam fazer essa carta chegar até você e que ela possa te encher o coração de força.

Orgulhe-se minha querida. Sua vida será repleta de sentido e propósito. Por isso, continue a escrever. Sua escrita mudará a vida de muitas pessoas.

E obrigada por me deixar existir. Cuide-se bem. Coma menos carne, medite mais e durma pelo menos oito horas por dia. Pare de se preocupar com sua saúde e insista nas aulas de dança de salão que quer tanto fazer.

Eu te amo.

Beijos com todo o amor e verdade,

Tatiana”