A Soma dos Dias

Foto Clara Meira

Foto Clara Meira

Hoje o despertador tocou às seis horas da manhã. Eu desliguei o alarme e me espreguicei. Quando levantei, a coluna travou. Senti uma dor lancinante e caí de volta na cama sem acreditar no que estava acontecendo. Era a minha alma gritando outra vez.

Há muito tempo venho repetindo um mesmo processo emocional que não consigo me curar. Somatizar significa transferir para o corpo um problema de origem psicológica. Hoje, depois de toda a estrada percorrida nos meus quarenta e dois anos, já entendi que não há nada, absolutamente nada que o corpo fale, que não tenha sido dito pela alma. Mas mesmo com toda a compreensão, com todos os anos de terapia sofridos, todos os florais tomados, meu corpo segue dando pistas de como minha alma continua inflamada.

É mais ou menos como varrer a casa e colocar toda a sujeira embaixo do tapete. Com o tempo, o que era só uma fina camada de poeira vai se transformando num enorme calombo. A gente começa a tropeçar na sala e percebe que não dá mais para disfarçar aquele bolo gigante de sujeira. A mesma coisa acontece com a gente. No dia-a-dia, a gente vai vivendo aos trancos e barrancos. Vivemos intensamente e mal conseguimos compreender tudo que nos acontece. São emoções, frustrações, raivas. Sentimentos e experiências acumuladas que não conseguimos digerir. Esse acúmulo, ao invés de nos nutrir, começa a nos intoxicar. As  vivências vão se transformando num grande e espesso lixo anímico que se transforma numa massa de dor. A alma pede socorro, mas não temos tempo de ouvi-la. Porque desprezamos o cansaço. Enterramos a tristeza. Desrespeitamos os sentimentos. Então a alma começa a chorar.

Quando a alma chora, a gente leva um susto. E rapidamente saca da bolsa um Rivotril para calar essa coisa estranha que nos aperta o peito. Ou toma logo uma Neosaldina para essa enxaqueca que não passa. Ou um Omeprazol para essa dor de estômago que nos incomoda tanto. E como esses milhões de remédios vão sendo consumidos todos os dias para que os lamentos da alma se calem. E a gente possa continuar a jornada da vida, afinal de contas, nós precisamos trabalhar. Precisamos lutar pelo pão de cada dia. Porque precisamos ser felizes. Porque precisamos ter sucesso. Porque precisamos mostrar para todo mundo como somos felizes e como somos bem-sucedidos. Até que um dia a alma explode e não há remédio que nos tire de uma crise de lombalgia aguda.

Eu herdei do meu pai uma hipocondria patética. Talvez por ter descoberto desde pequena que a doença sempre o traria para mais perto de mim. Mas a verdade é que aprendi com louvor a ler e decifrar bulas na intenção de sufocar qualquer tipo de dor. A dor de existir já me é tão dolorida que as dores do corpo eu não consigo suportar. E assim, aprendi um mecanismo esquizofrênico de me antecipar ao sofrimento, antes mesmo que ele possa me alertar de qualquer coisa que esteja errado com a minha máquina. É engraçada a hipocondria do Woody Allen nos filmes. Mas na vida real é uma doença aprisionante e bem deprimente. E uma grande aliada nesse processo de calar a voz da alma.

Não fazemos por mal. Não fazemos numa intenção maléfica. Fazemos porque temos medo. Porque não sabemos se suportaremos tudo que a alma tem a nos dizer. Nem se suportaremos as nossas mais profundas verdades. Porque no fundo, não queremos sair das nossas zonas de conforto. Não queremos ter trabalho. Não queremos ter que olhar para as nossas sombras. Olhar para a parte em nós que nos envergonhamos. Olhar para as nossas feridas que nunca cicatrizaram. Não. Tudo isso é demais para quem tem que acordar às seis da manhã e viver um dia inteiro de trabalho e provações e desafios.

Mas um dia o despertador toca. E a gente levanta. E a coluna trava de tal maneira que por mais que a gente queira muito, ou precise, o corpo simplesmente te impede de levantar. É um mecanismo genial esse não, que a natureza inventou? Me estico para pegar o livro que está na cabeceira – “A Doença como Símbolo”, de Rüdiger Dahlke – e abro na página que diz: lombalgia. Leia o parágrafo com desânimo: “sobrecarga; não suportar o peso que se carrega; sentimentos de pequenez e inferioridade, o chamado entre o eu e o instinto dilacera a pessoa; dilacerar-se; torcer-se.” Não é possível. Mas está tudo bem! Eu estou dando conta de tudo. A vida está me trazendo os desafios e eu estou correspondendo a eles como devo.

Não Tatiana. Nada está bem. Você tem sofrido o último ano de infecção urinária de repetição – que nada mais é do que “chorar por baixo”, ter uma necessidade desesperada de se livrar de lixos anímicos – vira e mexe volta a ter labirintite – que é uma luta agressiva pela orientação certa em relação ao mundo e ao equilíbrio anímico. Anímico! Tudo gira em torno da sua alma, você não percebe? Até quando você pretende fingir que não está escutando o que sua alma tem a dizer? Até chegar a um diagnóstico de câncer?

Minha terapeuta costumava dizer que a gente cura as nossas feridas em camadas. E que se voltamos ao que nos parece ser o mesmo ponto que partimos, é sinal que na espiral da vida, ao menos um véu já conseguimos tirar dos olhos. E muitos… muitos são os véus que nos cegam. Depois de passar semanas com dores insuportáveis nas costas, descobri que minha lombalgia tinha se transformado numa hérnia de disco. Hérnia de disco quer dizer: “abertura de uma ferida antiga; estar sob pressão em decorrência de problemas antigos, que já eram urgentes na época da lesão”.

Talvez eu precise voltar para terapia. Sinceramente não me vejo capaz nesse momento de conseguir decodificar tantos sinais. Me sinto perdida numa escuridão interna. Não estou sozinha. Sei que muitos seres invisíveis me ajudam e me apoiam na minha caminhada. Mas a jornada da alma é um caminho de muitas bifurcações e escolhas delicadas. Não quero me perder dentro de mim mesma. Não quero fazer o quadro de uma doença sem cura. Não quero e não pretendo morrer antes da hora.

20 ideias sobre “A Soma dos Dias

  1. Parabéns, Tati! Belíssimo texto e descreve bem a minha vida e de muita gente! 👏👏👏👏

  2. Tati, exatamente como estou hoje… Pensar através de suas palavras é mais confortável…

  3. “Embora o corpo seja muito inteligente, ele não consegue diferenciar uma situação real de um pensamento” .
    Silêncio e presença… Lugares em que a verdadeira inteligência atua.
    Estamos juntas!
    Beijos muitos, com carinho

  4. Nossa, amiga! Muito bem escrito, mas triste demais! Caraca! Não pode ser tão difícil assim a gente proteger a emoção e se cuidar como se deve! Identifico-me com certeza e espero encontrar o caminho de volta…a cura da alma e consequentemente a do corpo.

  5. Oh Tati, tão verdadeiro. ..tão urgente é cuidar dessas dores de dentro e tão difícil entendê las e decifrá las a ponto de curar tudo…mas essa sua coisa de artista te faz um ser de luz e uma grande comunicadora desse mundo interno. Me guiou para as minhas profundezas hoje…Tão bem escrito, como sempre! Um grande beijo, te cuida!

  6. Janine, flor… tão bom te saber tão perto de mim hoje… no fundo, no fundo… é das profundezas que gosto mais… Beijo querida!

  7. seja o q for, levanta te , “sacode a poeira e dá a volta por cima”; mas , sério, é muito bom termos com quem contar nesses momentos. Espero q tenha amparo

  8. Lula, meu querido! Que boa surpresa! Sim, tenho amparo, tenho colo. Mas as dores da alma são só nossas e são importantes! Beijo querido!

  9. Parabéns Tatiiiii!!! Ainda vou falar um ou mais textos seus no teatro!
    E viva as dores da alma e quem as admite!, depois q passam, nós voamos crescidos e mais humanos!

  10. Corajosa!!! Vc não veio a passeio querida!
    Q bom q a Vida te atinge tanto!!! À mim tb! Ô!
    meu carinho e admiração!

  11. Me faz um favor? Abra seu “Mulheres que Correm com os Lobos” na página 384 e leia “O rio em chamas” só até a página 385 (nem precisa seguir adiante…). Clarissa tem um recado pra você – e pra mim, claro!, que tenho meu ‘Rio Abajo Rio’ precisando, clamando, por despoluição, como o seu.

    Encontrei aqui uma citação muito importante de Beth Bear: “Embora o corpo seja muito inteligente, ele não consegue diferenciar uma situação real de um pensamento” . Este é o grande ensinamento de hoje, meu amor, pra você, pra mim e pra quem está enredado nas dores do cotidiano.

  12. Esqueci de comentar a MARAVILHOSA foto que ilustra sua crônica. Essa Clara Meira ainda vai dar muito o que falar! Que foto!!!

  13. Amada minha! Que saudade! Marcinha, se existe uma pessoa no mundo que eu me sentiria honrada em ser representada no teatro, essa pessoa seria você. Meus textos são seus! Te amo!

  14. um dos melhores textos.
    não tenho o que dizer do quanto vc me impressiona, só sentir e te abraçar. 💘

  15. Uau, Tati… que texto intenso! Vou repassar ao meu irmão – aliás, como vocês se parecem! Nossa! – ele vive estas crises, também.
    Beijoquinha,
    Livinha

  16. Isso tinha que ser publicado na primeira página de um mega jornal para que as pessoas pudessem ler e pensar muito sobre isso. Somos nós mesmos a doença e a cura! E viva a vida! Beijos e muita saúde (alma, corpo e mente)!

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