A doença do labirinto

Lucca_labirinto

para Bia Albernaz

Há muito tempo entendi que a estrada da vida não é uma linha reta e sim uma espiral sagrada aonde vamos percorrendo a existência em profundo desejo de ascendência. O que eu não sabia é que em determinados momentos a espiral dá lugar a labirintos e que só saímos dele se entendermos em profundidade o seu significado.

Há três semanas cheguei à emergência do hospital passando muito mal. Tonta, enjoada e com dores de cabeça, o diagnóstico da médica foi certeiro: labirintite. Dizem que a labirintite é uma inflamação no ouvido. Mas isso não é verdade. Labirintite é uma inflamação na alma. De origem exclusivamente emocional, a doença do labirinto é coisa séria e dependendo do Teseu, pode ser tão trágica quanto as piores tragédias da mitologia grega. No meu labirinto não há somente um, mas diversos Minotauros soltos querendo me pegar e o pior, sem ter nem meio metro de fio de Ariadne para me ajudar.

Dizem que o labirinto é, essencialmente, um entrecruzamento de caminhos, dos quais alguns não têm saída e outros só nos levam a alguns impasses. Não há quem me faça desassociar a imagem do labirinto à minha labirintite. Perder o chão é como perder o caminho. Estar perdida dentro de mim mesma é como chegar a uma determinada parte da jornada e perceber que algo muito importante está errado.

No livro “A Doença como Símbolo” a definição de labirintite é devastadora: a doença vem como uma alerta do corpo à alma para que ela pare de se enganar. Como se de repente o indivíduo precisasse voltar a olhar de frente para tudo aquilo que construiu e rever os valores e crenças na qual baseou sua vida. Pancada não?

Debruçada sobre o significado do símbolo descobri que o labirinto foi construído pela primeira vez na intenção de ser um inteligente sistema de defesa. E que há dois tipos de labirintos: aqueles que tem a intenção de confundir os viajantes – e não tem saída – e aqueles que, como numa viagem iniciatória, não tem a intenção de aprisionar o viajante e sim transformá-lo através da experimentação – já que percorrer é mais importante do que sair – e geralmente guarda em seu centro um precioso e sagrado tesouro.

É muita riqueza num símbolo só! Mas tomar consciência da verdade não me livra da labirintite, nem tampouco do labirinto no qual estou perdida. Tenho tomado uma quantidade absurda de remédios alopáticos, florais de emergência, trabalhado minhas questões na terapia. Diminui café, mate, chocolate. Durmo sentada e não abaixo a cabeça para mais nada. Tenho estudado sobre o assunto. Tenho escrito – à mão já que fui proibida de ficar no computador – e meditado. A única coisa que não fiz que a médica mandou fazer foi caminhar. Ah, eu acho tão chato caminhar. Será que isso significa alguma coisa?

Tudo significa algo na simbologia da existência humana. Mas a verdade é que não consigo ficar boa. Não consigo me sentir bem de novo. Não consigo achar uma saída nem achar nada de precioso no centro de coisa alguma. Na vertical já voltei a ter alguma controle. Sigo trabalhando, dirigindo, cuidando das meninas. Mas se abaixo, levanto ou me deito depressa, o mundo continua vibrando na sensação estranha de ter tomado um porre sem ter ingerido uma única gota de álcool.

Os espíritas tem uma explicação para o meu caso. Vários já vieram falar comigo. E o diagnóstico é sempre o mesmo: mediunidade não trabalhada. Dizem que minha tontura e mal estar nada mais é do que um chamado sério da alma para a necessidade de um desenvolvimento espiritual.

Pode ser. Não estou fechada para nada. Já estou em busca de mim mesma, buscar um centro espírita vai ser moleza. Mas que fique registrado no livro cósmico da vida: se a intenção é que eu expanda minha consciência ajudando ao próximo, de uma coisa tenho certeza; isso eu já venho fazendo ao longo dos meus quarenta anos. Tenho um respeito profundo pelo mundo e pelas pessoas. Sou amorosa e isso se multiplica a partir do meu coração em todas as minhas ações cotidianas. Descobri que posso curar alguns espíritos com aquilo que escrevo e isso tudo, de alguma forma, já é trabalhar minha mediunidade, não?

Mas se preciso fazer mais, farei. Se preciso ir mais fundo, eu irei.

Diz o “Dicionário de Símbolos” de Jean Chevalier:

“O labirinto conduz o homem ao interior de si mesmo, a uma espécie de santuário escondido, no qual reside o mais misterioso da pessoa humana. A transformação do eu, que se opera no centro do labirinto, e que se afirmará à luz do dia no fim da viagem de retorno, no término dessa passagem das trevas à luz, marcará a vitória do espiritual ao material e, ao mesmo, tempo, do eterno sobre o perecível, da inteligência sobre o instinto, do saber sobre a violência cega.”

Que o meu saber possa conter essa violência que tenho feito sofrer meu corpo. Que o meu amor vença todos os medos que surgirem em forma de Minotauros. E que a minha fé me faça encontrar a Ariadne que habita em mim e ela possa me alertar, através de sua coragem e inteligência, que não há verdade que doa mais do que a ilusão daquilo que construímos nos labirintos de nós mesmos.

O que achou?